O aparente confronto entre uma política realizada por meio da realizações de valores e ideais e outra baseada no atingimento de objetivos estratégicos amorais é um tema recorrente do debate público. Os gregos antigos, embora nos tenham deixado grandes filósofos e o legado democrático, marcaram a história por seu expansionismo militar, bem retratado na obra de Tucídides. A maturação desse debate é indiscutivelmente necessária para a melhor compreensão e eventual formulação da política externa dos modernos estados-nações.

O chanceler alemão Bismarck disse certa vez que nunca se mentia mais do que depois de uma pescaria, antes de uma eleição e durante uma guerra. Essa afirmação, rica de significados, chama a atenção para alguns aspectos. O processo eleitoral, tempo em que afloram discursos que apelam aos valores morais e emocionais de uma sociedade, seria composto também de muitas inverdades, necessárias, contudo, para o atingimento de certos objetivos. Por sua vez, a guerra, presente na história das nações como realidade ou possibilidade, é outro contexto onde a correspondência entre fatos e versões é baixa. Tarefas nobres como a eleição de um político com bons projetos ou a sobrevivência de um estado são, portanto, permeadas por um modus operandi questionável.

Valores e ideais são imprescindíveis para a política. Entretanto, frequentemente a busca pela realização desses valores esbarra em obstáculos difíceis de superar sem alguma flexibilização ética. Como o candidato venceria uma eleição se dissesse que os melhores resultados de suas propostas seriam percebidos somente em vinte anos? De que maneira o comandante-em-chefe das forças armadas diria ao seu povo que a união nacional causada pela guerra é um resultado mais importante do que o desfecho do conflito? A resposta a essas perguntas é exatamente a constatação de que não existe constante e necessariamente um conflito entre uma política baseada somente em estratégia e outra baseada em valores e ideais.

A história da política externa das nações é farta em registros que comprovam essa ambivalência da política. A polêmica envolvendo a pretendida nomeação de Dami Dayan para o posto de embaixador do estado de Israel no Brasil é uma prova recente. Por um lado, a diplomacia brasileira é defensora histórica do direito de existência do estado judeu desde a década de 1940, com a marcante atuação de Oswaldo Aranha. Por outro lado, também defende uma solução que envolva a criação de um estado palestino. O diplomata indicado pelo governo israelense é um dos líderes da política de assentamentos judaica, apontada por muitos como um dos entraves à construção da paz na região.

O estado atual da questão aponta para uma solução intermediária entre uma política idealista e uma política estritamente realista. Em que tenham pesado os esforços israelenses para a nomeação de Dayan, a concessão do agrément não ocorreu e o diplomata acabou nomeado em outro posta. Ainda assim, as consequencias não foram além disso. Israel é um dos poucos países com os quais o Brasil tem acordos bilaterais de livre-comércio; e isso não mudou. As forças armadas brasileiras têm interesse em uma parceria com o estado judeu visando a modernização de seus equipamentos. Ao que tudo indica, as negociações foram retomadas.

Um conflito insuperável entre uma visão utópica e outra estratégica ao extremo só serviria para tornar o exercício da atividade política impossível. A história, desde os gregos, passando pelos europeus do século XIX e pela recente história brasileira, comprova essa tese. Indiscutivelmente, a política deve gravitar em torno de valores e ideais, mas tanto a política quanto seus valores e ideais, se objetivam ser efetivos para uma nação, devem gravitar em torno dos anseios e necessidades nacionais – custe o o que custar.


Texto originalmente elaborado como exercício de redação proposto pelo Prof Canani da Telos Educação. 
O autor é aspirante à carreira diplomática e agradece o apoio financeiro ao projeto oferecido por seu pai.

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